Oxum: Entre a Beleza, a Fúria e a Prosperidade
- William Santos
- 7 de jun.
- 2 min de leitura
Dona Marina concordou e acrescentou que a doçura de Oxum nunca significou fraqueza. Assim como as águas podem acolher e nutrir a vida, também podem demonstrar poder quando provocadas. Por isso, os ensinamentos ancestrais recomendavam humildade diante dos rios e gratidão pelas bênçãos recebidas. Quando entra em fúria, Oxum não tolera a ousadia daqueles que desrespeitam seus domínios. Diziam os mais velhos que, nesses momentos, suas águas se tornam impetuosas, arrastando tudo pelo caminho e destruindo as canoas daqueles que tentam atravessar o rio sem prudência.

Enquanto conversavam, Dona Chica recordou outra tradição muito presente no Brasil: o sincretismo religioso. Explicou que Oxum é frequentemente associada a Nossa Senhora da Conceição em diversas regiões do país. No entanto, ressaltou que se tratam de figuras pertencentes a tradições religiosas distintas. Oxum é um orixá das religiões de matriz africana, enquanto Nossa Senhora da Conceição é uma importante devoção da tradição católica.
Essa associação surgiu durante o período da escravidão, quando africanos e seus descendentes encontraram formas de preservar sua fé diante das proibições e perseguições impostas pela sociedade da época. Ao relacionarem os orixás às imagens dos santos católicos, conseguiam manter vivos seus cultos, suas memórias e suas tradições espirituais. Dessa forma, o sincretismo tornou-se uma estratégia de resistência cultural e religiosa, permitindo que muitos saberes ancestrais atravessassem gerações e permanecessem vivos até os dias atuais.
As três mulheres permaneceram por alguns instantes observando o rio. O brilho do sol refletia sobre as águas, lembrando-lhes que Oxum reunia em si a delicadeza e a força, a beleza e a sabedoria, a ternura e o poder. Entre histórias, memórias e ensinamentos, compreenderam mais uma vez que os rios guardam não apenas a água que sustenta a vida, mas também a memória dos povos que aprenderam a honrar seus mistérios.
Mas a história de Oxum não termina por aqui. Ainda há muitos ensinamentos, muitos mistérios e muitas histórias para serem contadas. Precisaremos voltar ao rio para lavar roupas e continuar essa narrativa.
O tempo, porém, já avançava. O sol começava a descer no horizonte, e ainda havia muito trabalho a ser feito. Dona Marina, Dona Chica e Alice recolheram as roupas lavadas, ajeitaram os cestos e iniciaram o caminho de volta para casa. Em tempos de escravidão, as obrigações não esperavam; era preciso preparar a comida, cuidar dos afazeres e atender às exigências dos senhores.
Antes de se despedirem, Dona Chica sorriu e disse:
— A história de Oxum não termina por aqui. Ainda há muitos ensinamentos, muitos mistérios e muitas histórias para contar.
Dona Marina concordou com um leve aceno de cabeça.
— Amanhã voltaremos ao rio. E, enquanto as águas correrem, continuaremos lembrando os antigos saberes que nossos ancestrais nos deixaram.
Com essas palavras, seguiram pela estrada de terra, enquanto o rio permanecia correndo serenamente, guardando em suas águas os segredos de Oxum e a memória daqueles que jamais deixaram sua história ser esquecida.
William Santos



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