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Minha Literatura Brasileira: Entre Ladeiras, Rejeições e o Amor que Aprendeu a Ficar

  • Foto do escritor: William Santos
    William Santos
  • 23 de mai.
  • 6 min de leitura

Conheci ela no trabalho. No começo, ela não queria ficar comigo, mas eu já estava completamente encantado. Aos poucos, meus sonhos começaram a crescer junto com esse sentimento, e tudo foi acontecendo de maneira inesperada. Seus cabelos longos chamavam minha atenção de um jeito difícil de explicar, e cada detalhe dela me fazia ficar ainda mais apaixonado. Mesmo sem perceber, ela foi ocupando espaço nos meus pensamentos, nos meus dias e no meu coração.

Imagem descritiva, produzida por inteligência artificial, de autoria de William Santos.
Imagem descritiva, produzida por inteligência artificial, de autoria de William Santos.

Fui puxando assunto, criando expectativas e elaborando planos que só existiam dentro de mim. Enquanto isso, ela, com seus olhos de cigana oblíqua e misteriosa, quase não demonstrava interesse. Ainda assim, havia algo no jeito dela que me prendia, como se cada olhar carregasse um mistério impossível de ignorar. E, mesmo sem respostas claras, eu continuava ali, alimentando sentimentos e imaginando possibilidades.

Parecia que eu era Bentinho e ela, uma espécie de Capitu moderna. Quando eu a levava até o ponto de ônibus, carregando sua mochila e caminhando ao lado dela, sentia como se estivesse vivendo uma cena saída das páginas da literatura brasileira, semelhante às conversas de Bentinho e Capitu perto da árvore. Tudo parecia uma história escrita nas entrelinhas da língua portuguesa, cheia de sentimentos, dúvidas e idealizações.

Eu, que quase segui o caminho do sacerdócio antes de conhecer meu amor, me vi completamente perdido por alguém que parecia distante. Mas havia uma diferença cruel entre a minha história e a de Machado de Assis: Capitu, aos olhos de Bentinho, demonstrava interesse. Já a minha paixão parecia me humilhar um pouco mais a cada dia, como se eu insistisse sozinho em sustentar um sentimento que nunca encontrou abrigo no coração dela.

Dias antes, comemos tropeiro no Jardim de Mariana, na Praça Gomes Freire. Nossa, que espetáculo parecia aquele instante. Entre conversas simples e olhares discretos, eu transformava pequenos momentos em capítulos inteiros dentro da minha cabeça. Combinamos de ir à missa no dia do meu aniversário, naquele 16 de abril primaveril em pleno outono, uma data que carregava para mim um significado quase poético.

O padre celebrou no Santuário de Nossa Senhora da Conceição, em Ouro Preto. Depois da missa, acompanhei ela até o curso de inglês, no centro histórico da cidade, enquanto a noite cobria as ladeiras antigas com aquele silêncio típico das cidades mineiras. Dentro de mim, existia esperança. Talvez ingenuidade. Talvez amor demais.

Foi então que, de maneira fria e curta, ela disse:— Só amizades.

Naquele instante, senti como se meu coração tivesse sido arrancado do peito. Me vi como Jade esperando Lucas em O Clone, preso a um amor impossível, alimentando sentimentos que nunca encontravam o mesmo abrigo do outro lado. Passei a entender aquela dor silenciosa das novelas, dos romances e dos poemas: a de amar sozinho.

Meu amor me deixou em pedaços. E, naquela noite de Ouro Preto, entre igrejas barrocas, ruas de pedra e o vento frio do outono, percebi que algumas histórias não terminam em romance. Algumas apenas nos transformam para sempre.

Mesmo assim, continuei insistindo. Talvez por esperança, talvez por orgulho, talvez porque algumas paixões nos cegam lentamente. Mas, no meio do caminho, acabei me envolvendo com outra pessoa, apenas uma vez, apenas um beijo, justamente uma colega dela. E aquilo, em vez de aliviar minha dor, me deixou ainda mais apavorado, com medo de perder de vez minha paixão platinada, mesmo sabendo que ela nunca tinha sido realmente minha.

Ah, eu me senti como Ross tentando esquecer Rachel em Friends. Só que, no meu caso, a minha “Rachel” nunca corria atrás de mim, nunca demonstrava ciúmes, nunca dizia que me amava. Existia apenas silêncio, distância e rejeição. Talvez, no fundo, eu estivesse tentando preencher um vazio impossível de ser ocupado.

Acabei me torturando emocionalmente e, sem perceber, também machucando outras pessoas no processo. Porque amar alguém que não nos ama de volta cria feridas silenciosas. A gente passa a viver preso entre memórias, expectativas e comparações, tentando encontrar sinais onde talvez nunca tenha existido nada além de gentileza.

E foi assim que percebi que algumas paixões não destroem de uma vez. Elas vão nos consumindo devagar, como uma chuva fina nas ladeiras de Ouro Preto: silenciosa, fria e persistente. Algumas pessoas passam pela nossa vida não para permanecer, mas para nos ensinar o quanto um coração pode amar, insistir e também se perder dentro de si mesmo.

E como eu sempre amei contos de fada, romances impossíveis e histórias de amor quase inalcançáveis, lembrei da biografia de Xuxa Meneghel, quando ela descrevia Junno Andrade como uma espécie de príncipe encantado que apareceu mais tarde em sua vida. Diziam que ele escrevia poesias, falava de amor com calma e maturidade, e aquilo me fez pensar em silêncio:— Talvez o amor verdadeiro também demore para mim.

Talvez, quem sabe, aos sessenta anos eu encontre alguém tão linda quanto a mulher que tanto amei e que tantas vezes me rejeitou. Mas, diferente das fantasias românticas que eu criava, no fundo eu já não queria castelos, promessas impossíveis ou histórias perfeitas. Eu queria apenas algo simples: morar ao lado da mulher que eu amava, dividir os dias, ouvir sua voz no fim da tarde e transformar o cotidiano em lar.

Porque, às vezes, o maior sonho de quem ama demais não é ser protagonista de um conto de fadas. É apenas deixar de ouvir “não” e finalmente encontrar alguém que escolha ficar.

Numa sexta-feira, Dona Lê me rejeitou com força depois de seis meses de insistência silenciosa. A dor veio como um peso impossível de carregar. Tomei um calmante forte, mas não resolveu. Parecia que eu estava em choque, perdido dentro da própria tristeza.

Na madrugada, rezei o rosário tentando manter a mente firme e o coração em pé. E naquele silêncio da oração, entre ave-marias e pensamentos confusos, percebi o quanto havia colocado meu amor platônico acima de tudo, até mesmo de mim mesmo.

No domingo, fui me confessar. Precisava ouvir alguma palavra que organizasse aquele caos dentro de mim. Então o padre, com a serenidade de quem já ouviu muitas dores humanas, respondeu:— Você tem jeito de irmão. Já pensou que talvez ela o veja assim?

Na hora, aquelas palavras me destruíram. Foi como arrancar a última esperança que ainda existia dentro de mim. Mas, ao mesmo tempo, havia uma verdade silenciosa ali. Uma verdade dura, porém calma.

E talvez tenha sido justamente isso que começou a me curar.

Dias antes, uma mãe de santo também havia me dito:— Quando algo é da gente, o tempo traz.

O padre, de outra forma, parecia dizer algo parecido: talvez aquilo nunca tivesse sido amor correspondido, talvez fosse apenas amizade vista por olhos apaixonados demais. Entre conselhos espirituais, conversas sobre trabalhos, entidades e desabafos com amigos, eu tentava encontrar alguma resposta que aliviasse meu peito.

Mas, no fundo, talvez a resposta mais difícil fosse justamente aceitar que nem todo amor nasce para ser vivido. Alguns existem apenas para nos atravessar, nos transformar e ensinar que sentir demais também pode ser uma forma de fé.

Então aconteceu algo que eu jamais esperava.

Na semana seguinte, justamente quando eu começava a me conformar e tentava me afastar, ela começou a sentir minha falta. Sentia falta das conversas, das caminhadas pelas ruas antigas, de eu levá-la até o ponto de ônibus no fim do expediente. Pela primeira vez, parecia que o vazio tinha mudado de lado.

E eu, tentando proteger o pouco que ainda restava do meu coração, disse:— Não vou mais conversar com você. Nem levar você ao ponto.

Mas a verdade é que aquilo não durou nem um dia. Porque certas conexões, quando são verdadeiras, continuam existindo mesmo depois do orgulho, das lágrimas e das despedidas ensaiadas.

Duas semanas depois, começamos a namorar.

E foi como se toda aquela história de desencontros finalmente tivesse encontrado repouso. Aos poucos, deixamos de ser um drama melancólico de novela para viver algo mais leve, divertido e verdadeiro, como Chandler Bing e Monica Geller em Friends: uma relação construída na amizade, na convivência diária, nas conversas bobas, nos medos compartilhados e no amor que surgiu quase sem perceber.

E, logicamente, quando chegou o pedido de casamento, meu coração lembrou imediatamente da cena de Chandler e Monica. Porque, depois de tanta dor, rejeição, esperança e espera, eu finalmente entendia uma coisa:

Algumas histórias de amor não começam como contos de fada.

Algumas começam como oração, silêncio e saudade.

Mas, quando florescem, parecem milagre.


William Santos

1 comentário


Leticia Le
Leticia Le
23 de mai.

Gente que história mais linda 😍

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