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Entre Obá e a Esperança do Amor em Tempos de Guerra

  • Foto do escritor: William Santos
    William Santos
  • 14 de jun.
  • 4 min de leitura

Jaci chegou ao terreiro e logo se aproximou de Vó Chica. Enquanto participava das atividades do local, confidenciou que havia encerrado recentemente um relacionamento amoroso. Em resposta, Vó Chica começou a narrar a história de Obá.

Obá era uma mulher vigorosa, destemida e dotada de grande coragem. Talvez não possuísse o charme e o refinamento admirados por muitos, mas sua força era incomparável. Não temia ninguém e encontrava satisfação nos desafios e nas batalhas que enfrentava. Guerreira por natureza, carregava uma determinação capaz de fazê-la superar qualquer adversidade.

Enquanto contava a história, Vó Chica voltou-se para Jaci e afirmou que Deus ainda reservava muitas bênçãos para sua vida. Disse que ela possuía características semelhantes às de Obá: era forte, resiliente e capaz de enfrentar as dificuldades com coragem. Explicou que, assim como a orixá, precisava confiar em sua própria força e seguir em frente, sem permitir que as decepções do passado definissem seu futuro.

Obá saiu vencedora de todas as disputas organizadas entre os orixás, demonstrando bravura, habilidade e perseverança. Sua trajetória transformou-a em um símbolo de resistência e determinação, inspirando aqueles que conheciam sua história.

Após ouvir atentamente, Jaci comentou que precisava voltar a viver plenamente, compreendendo que a vida é feita de experiências, aprendizados e recomeços. Diante de suas palavras, Vó Chica abriu seu baralho de tarô sobre a mesa e, observando atentamente as cartas, afirmou que um novo ciclo estava prestes a começar. Segundo sua interpretação, uma nova pessoa surgiria em seu caminho, trazendo oportunidades para que ela reconstruísse sua confiança e vivenciasse novas experiências afetivas.

Arte gerada e criada por William Santos, inspirada na estética ilustrativa e na valorização da cultura afro-brasileira. A imagem apresenta uma interpretação artística produzida para fins culturais e visuais.
Arte gerada e criada por William Santos, inspirada na estética ilustrativa e na valorização da cultura afro-brasileira. A imagem apresenta uma interpretação artística produzida para fins culturais e visuais.

Em seguida, Vó Chica olhou fixamente para Jaci e disse:

— Você precisa rezar mais, minha filha. A vida é uma jornada de desafios, e nem sempre os caminhos são leves. Há momentos em que os fardos parecem mais pesados, mas a fé nos dá forças para seguir adiante. Este é um período de provações, mas também de crescimento. Você encontrará a força necessária para vencer cada obstáculo que surgir em seu caminho.

Ao analisar as cartas, Vó Chica percebeu símbolos que representavam caminhos abertos para o amor e para a construção de uma nova história. Segundo sua leitura, um homem jovem poderia surgir em breve em sua vida, trazendo consigo a possibilidade de transformação e renovação. Contudo, ressaltou que o mais importante não seria apenas a chegada dessa pessoa, mas a sabedoria para fazer as escolhas corretas.

— O destino oferece oportunidades, Jaci, mas cabe a cada um reconhecer aquilo que realmente vale a pena. Quando esse momento chegar, pense como Obá: com coragem, firmeza e dignidade. Não permita que a carência fale mais alto que a razão. Escolha alguém que caminhe ao seu lado, respeite sua essência e contribua para o seu crescimento. Assim como Obá enfrentou seus desafios sem perder sua força, você também deverá confiar em si mesma para construir o futuro que merece.

Curiosa, Jaci perguntou:

— Vó Chica, como será esse homem?

A velha senhora observou novamente as cartas e sorriu de maneira serena.

— Vejo um homem trabalhador, honesto e dedicado. Alguém que valoriza o esforço diário e constrói sua vida com simplicidade e dignidade. Terá muitas semelhanças com São José Operário, padroeiro dos trabalhadores. Assim como o humilde carpinteiro que foi pai adotivo de Jesus, esse homem compreenderá o valor do trabalho honesto, da responsabilidade e do compromisso com a família.

Vó Chica fez uma breve pausa antes de continuar:

— Não será alguém que impressionará pelas palavras ou pelas aparências, mas pelas atitudes. Será um homem de fé, perseverante diante das dificuldades e disposto a caminhar ao seu lado nos momentos bons e nos momentos difíceis. As cartas mostram alguém que compreenderá suas lutas e respeitará sua força, porque também carregará suas próprias batalhas.

Jaci ouviu atentamente cada palavra. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu que seu coração encontrava um pouco de paz. Talvez o futuro ainda guardasse incertezas, mas também carregasse novas possibilidades. E, assim como Obá, ela compreendeu que sua verdadeira força estava em seguir adiante, sem medo de recomeçar.

Ao longo de sua caminhada, Jaci conheceu diversas pessoas. Muitas delas, porém, não possuíam a bondade, o respeito e a sensibilidade que ela tanto valorizava. Ainda assim, continuou seguindo em frente, fortalecida pelas palavras de Vó Chica e pela fé que crescia dentro de seu coração.

Com o passar do tempo, passou a frequentar diariamente as missas e a participar mais ativamente da vida da Igreja Católica. Encontrava nas orações um refúgio para suas inquietações e uma fonte de esperança para os dias difíceis. Cada celebração parecia renovar sua confiança em Deus e em seus desígnios.

Foi nesse período que surgiu em seu caminho um jovem de dezenove anos. Os dois começaram a conversar após as missas e, aos poucos, estabeleceram uma amizade marcada por diálogos intensos, provocações bem-humoradas e opiniões muitas vezes divergentes. Em certos momentos, a relação lembrava a dinâmica entre Petruchio e Catarina: ambos possuíam personalidades fortes, não evitavam debates e frequentemente desafiavam um ao outro.

Apesar das diferenças, Jaci percebia que aqueles encontros lhe proporcionavam importantes reflexões. No entanto, durante suas orações, sentia que Deus lhe mostrava uma verdade maior: nem tudo o que surge em nosso caminho está destinado a permanecer para sempre. Algumas pessoas chegam para ensinar, outras para transformar, e algumas apenas para acompanhar uma parte da jornada.

Aos poucos, ela compreendeu que não precisava se apegar à ideia de que cada encontro deveria resultar em uma história eterna. A vida era feita de ciclos, e cada pessoa possuía um propósito dentro deles. O amor verdadeiro não nasce da ansiedade ou da expectativa, mas da confiança no tempo de Deus.

Assim, enquanto caminhava após mais uma missa, Jaci ergueu os olhos para o céu e sorriu. Já não buscava respostas imediatas. Havia aprendido que os caminhos da vida são imprevisíveis e que nem tudo é permanente. Contudo, também compreendeu que, enquanto houver fé, esperança e coragem para recomeçar, o amor poderá sempre surgir quando menos se espera.


William Santos


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