Corpos Livres, Afetos Inacabados
- William Santos
- 4 de fev.
- 2 min de leitura
Ela era uma mulher de pensamentos firmes, que vivia com intensidade. Amava cantar, namorar e se expressar livremente, embalada pelas músicas de seus cantores preferidos. Capricorniana, tinha personalidade forte e não aceitava assédio nem atitudes patriarcais. Aprendia a dançar, gostava de usar o cabelo ruivo e não se definia pela solidão. Seu grande amor, porém, era um homem que amava outro homem.

Ela soltava a voz e também rimava. Amava dançar e conversar, mas, acima de tudo, amava sua profissão. Sua vida, por vezes, parecia uma ilusão. Carregava, no amor, a ausência do pai e buscava, na noite e nos encontros, um alívio que nem sempre vinha. Vivia à sombra de um antigo amor que não soube lhe dar valor.
Ainda assim, mantinha a autoestima elevada. Um homem tentou usá-la, recorreu a artifícios, mas não conseguiu. Ao contrário: foi ele quem a fortaleceu, mesmo sem perceber, ajudando-a a construir uma autoestima sólida. O que ele sentia não era amor, mas paixão — e, ao perceber que não havia reciprocidade nem conexão profunda, restou-lhe o desconcerto.

Ela reagiu com orgulho ferido, misturando desejo, mágoa e provocação. Tentou seguir em frente, exibindo liberdade e autonomia, mas, no íntimo, não o havia esquecido. Entre razão e vontade, ainda carregava o desejo por aquele homem que nunca foi inteiro para ela.
Viver sendo uma mulher magra, preta e moradora de comunidade nunca foi simples. As marcas do preconceito e das desigualdades atravessavam sua história, mas não a definiam. Esses limites impostos não podiam — e não deveriam — determinar quem ela era nem até onde poderia chegar.

Ela era loira, morava na capital e chegou a oferecer o próprio corpo em troca de emprego, estágio ou prazer. Não por falta de competência, mas porque, no mundo machista, ainda persiste o chamado “teste do sofá”.
Era magrinha e amava o próprio cabelo. Com olhos oblíquos, quase ciganos, conseguia encantar vereadores, deputados e governadores. Muitos desejavam sua performance, mas poucos eram capazes de compreender sua complexidade.
Diziam amar sua timidez, mas rejeitavam a mulher intensa que surgia quando bebia — aquela que falava alto, ocupava espaço e rompia expectativas. Ela não amava os homens como eles esperavam; seu afeto se dirigia a uma ruiva que, por sua vez, amava um homem que amava outro homem.

Havia ainda outra mulher em sua vida: preta, de cabelos cacheados. Diferentes em aparência, semelhantes nas dores. Viveram juntas por um tempo, dividindo afetos, silêncios e resistências. Mas, como tantas histórias marcadas por desigualdades e desencontros, tudo acabou. Restaram as marcas, a memória e a certeza de que nenhuma delas cabia nos limites que o mundo insistia em impor.

William Santos




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